A REPRESENTAÇÃO DA MULHER NA IDADE MÉDIA NO FILME: O NOME DA ROSA
Adrielle Sousa Queiroz
O filme O Nome da Rosa, dirigido por Jean-Jacques Annaud e baseado na obra homônima de Umberto Eco, mergulha em um período histórico complexo: a Idade Média, mais especificamente o século XIV. A trama, que mistura mistério, filosofia e religião, ocorre em um monastério beneditino no norte da Itália, onde um monge franciscano, William de Baskerville, e seu discípulo Adso de Melk se envolvem em uma série de investigações sobre uma série de assassinatos. Embora o filme seja, sem dúvida, uma obra de ficção, ele oferece uma representação interessante da época medieval, com uma forte ênfase nos conflitos entre razão e fé, os dogmas da Igreja Católica e as tensões entre a elite clerical e os ideais de reforma da época.
Um dos aspectos centrais do filme é a presença de um ambiente monástico severo, dominado por um rígido controle social e intelectual, refletindo as profundas divisões da sociedade medieval, que se baseavam em uma estrutura patriarcal. A relação da Igreja com as questões de poder e controle social fica evidente no filme, sendo que a hierarquia e a autoridade do clero são representadas com um rigor quase absoluto. Nesse contexto, é importante refletir sobre a posição da mulher na Idade Média, e o filme, embora não seja centrado em uma protagonista feminina, oferece um retrato indireto do papel das mulheres na sociedade medieval. Em muitos aspectos, a mulher é tratada como um ser subordinado, muitas vezes vista sob uma lente misógina que permeava a teologia e as práticas sociais da época.
A história do filme “O Nome da Rosa” se passa em uma época marcada pela fé religiosa e pelas lutas de poder entre o clero e os movimentos de reforma, um contexto histórico em que a Igreja Católica exercia um controle significativo sobre todos os aspectos da vida, incluindo o conhecimento e a educação. Essa é uma das questões que permeiam o filme: o monastério onde se passa a história é um microcosmo da sociedade medieval, e os personagens refletem as tensões entre a fé, a razão e o poder da Igreja. Ao mesmo tempo, o filme lida com a questão do conhecimento oculto e da censura que, segundo o enredo, é praticada pelo clero para manter o controle sobre os fiéis. A figura do inquisidor Bernard Gui, que aparece como uma figura antagônica, simboliza a repressão das ideias que se opõem ao dogma religioso, refletindo um dos aspectos mais sombrios da história medieval.
Para uma análise mais profunda da figura feminina na Idade Média, é essencial recorrer à obra de autoras que discutem as representações de gênero nesse período. Maria Filomena Dias Nascimento, em seu trabalho “Ser Mulher na Idade Média”, argumenta que a sociedade medieval era essencialmente patriarcal e que as mulheres estavam restritas a esferas privadas e domésticas. Segundo Nascimento (2004), as mulheres da Idade Média eram, em grande parte, confinadas ao espaço privado, seja no âmbito familiar ou religioso, e não tinham o direito de participar
ativamente da vida pública ou do desenvolvimento do saber. Nesse contexto, as mulheres eram frequentemente vistas como sendo naturalmente subjugadas, como se sua posição inferior fosse um reflexo de uma ordem divina e natural.
Nascimento (2004) também destaca que a Igreja Católica, uma instituição dominante na Idade Média, foi profundamente influenciada pela misoginia que permeava as crenças judaicas e greco- romanas, e que essa visão da mulher como ser inferior e pecaminoso se refletia em muitos discursos teológicos. A figura de Eva, como a primeira mulher, era frequentemente utilizada para justificar a subordinação das mulheres, com teólogos como São Tomás de Aquino contribuindo para a ideia de que as mulheres eram essencialmente responsáveis pela queda do homem. Essa concepção de culpa original, associada à mulher, moldou a visão social da mulher medieval como sendo, em última instância, a causa de todos os males do mundo, necessitando, portanto, ser vigiada e controlada.
A repressão das mulheres no período medieval era, portanto, justificada por uma série de ideologias religiosas e culturais. A própria ascensão do movimento monástico, como o que é retratado em O Nome da Rosa, contribuiu para um ambiente de repressão e controle, não apenas em relação ao conhecimento, mas também em relação às mulheres. Embora a trama do filme não se concentre diretamente em uma figura feminina central, é possível perceber que as mulheres são marginalizadas e afastadas dos centros de poder, seja através de sua exclusão das esferas de
autoridade ou pela sua representação como objetos de desejo e, frequentemente, vítimas do desejo de controle do poder clerical.
Em uma reflexão mais detalhada, a situação das mulheres na Idade Média pode ser entendida à luz das observações de Christine Rufino Dabat, que aponta que a sociedade medieval era essencialmente dominada por uma religião que reforçava uma visão misógina e exclusivista (Pág.26) . Segundo Dabat (2002), essa ideologia resultava em um forte controle social sobre as mulheres, limitando suas opções de ação e impondo-lhes uma subordinação quase total. Essa perspectiva é evidente no próprio filme, onde as mulheres, quando aparecem, são frequentemente associadas ao pecado, à tentação e à morte, refletindo as ideologias da época que tratavam as mulheres como figuras a serem dominadas e controladas.
Ao decorrer do filme, uma das poucas mulheres que aparece é a jovem mulher que se envolve com o protagonista Adso. Sua personagem, embora não desempenhe um papel central, ilustra bem a marginalização feminina do período. Ela é tratada como um objeto de desejo, e sua participação na trama, embora significativa, se limita a servir aos interesses dos personagens masculinos. Isso reflete uma realidade histórica em que as mulheres eram frequentemente tratadas como figuras secundárias, cujos destinos estavam em grande parte nas mãos de homens poderosos. No entanto, a história da jovem mulher também serve como uma crítica à visão patriarcal da época, uma vez que, expõe a fragilidade da condição feminina naquele contexto histórico.
Dessa forma, o filme oferece uma interessante janela para o estudo da Idade Média, especialmente no que diz respeito ao papel das mulheres e à relação entre fé, poder e controle social. Embora a trama não se concentre diretamente em uma figura feminina central, ela nos permite refletir sobre as estruturas de poder que relegaram as mulheres a posições subalternas e
sobre como essas representações foram perpetuadas pela religião e pela filosofia medieval. As obras de Nascimento (2004) e Dabat (2002) ajudam a contextualizar essas questões, revelando a profundidade da opressão feminina durante esse período e como as mulheres foram sistematicamente marginalizadas e excluídas dos espaços de poder e conhecimento.
Em termos de uma proposta pedagógica para o uso do filme em sala de aula, uma possibilidade seria abordar a relação entre as ideias presentes no filme e as representações de gênero na Idade Média, promovendo uma discussão sobre a marginalização das mulheres no contexto medieval. O filme poderia ser usado como ponto de partida para uma análise crítica das fontes históricas, questionando a construção das narrativas históricas dominantes e convidando os alunos a refletir sobre como as mulheres foram representadas e tratadas nas sociedades medievais. A leitura de textos acadêmicos, como os de Nascimento (2004) e Dabat (2002), poderia ser complementada com discussões sobre as limitações impostas às mulheres, permitindo aos estudantes compreender as dinâmicas de poder da época e como essas questões se refletem em muitas das narrativas contemporâneas sobre o passado medieval.
REFERÊNCIAS
ANNAUD, Jean-Jacques (Direção). O Nome da Rosa (The Name of the Rose). Baseado no livro de Umberto Eco. Produção: Roberto Naccari, 1986. 2h 6min.
DABAT, Christine Rufino. Mas, onde estão as neves de outrora? Notas bibliográficas sobre a condição das mulheres no tempo das catedrais. In: Cadernos de História da UFPE, Ano 1, n.1, 2002, p. 23-68.
NASCIMENTO, Maria Filomena Dias. Ser mulher na Idade Média. 2. Ed. São Paulo: Editora X, 2004.
