FANZINES: MITOS DE ORIGEM SOBRE POVOS TRADICIONAIS
Prof. Ms. Rayme Tiago Rodrigues Costa
Os mitos de origem são mais do que simples histórias; são pilares que sustentam a cosmovisão de diversas comunidades, explicando a criação do universo, da humanidade e das estruturas sociais. No contexto ocidental, a predominância de uma única narrativa de origem, principalmente a cristã, frequentemente limita a compreensão do mundo e a aceitação de diferentes crenças e perspectivas. Essa uniformização é construída e reforçada historicamente por instituições como a igreja, a família e a escola, que moldam a nossa visão de mundo.
No Brasil, e especialmente na Amazônia, essa limitação é ainda mais evidente e problemática. A rica tapeçaria cultural da região, com suas diversas etnias indígenas e cosmovisões profundas, é frequentemente sub-representada ou distorcida em materiais didáticos. A falta de uma abordagem aprofundada dos mitos de origem de povos tradicionais contribui para o que a escritora Chimamanda Ngozi Adichie chama de “história única”. Essa narrativa singular empobrece a visão de mundo dos estudantes, dificultando o reconhecimento e a valorização das identidades locais. A disciplina de História, no 1º ano do Ensino Médio, ao abordar os primórdios da humanidade, tem um potencial enorme para apresentar essa pluralidade.
O que é uma Fanzine?
A palavra fanzine é a união de “fan” (fã) e “magazine” (revista). Em sua essência, trata-se de uma publicação independente, geralmente produzida por amadores com paixão por um tema específico. As fanzines surgiram como uma forma de expressão fora do circuito comercial, permitindo que qualquer pessoa compartilhasse suas ideias, artes, poesias ou histórias de forma autônoma e acessível.
Historicamente, as fanzines foram um meio vital para subculturas como o punk rock e a ficção científica, que as usavam para criar redes de comunicação e divulgar conteúdos alternativos. A produção de uma fanzine é simples: com materiais básicos como papel, tesoura, cola e canetas, é possível criar uma revista artesanal, fotocopiada e distribuída de forma independente. O que realmente define uma fanzine não é a qualidade gráfica, mas a paixão e a autenticidade de sua criação, representando a filosofia do “Faça Você Mesmo”.
A Atividade: Fanzines sobre Mitos e Povos Tradicionais
Partindo desse contexto, a atividade proposta para os alunos do 1º ano do Ensino Médio buscou ir além da “história única”. A ideia era que os estudantes investigassem e construíssem fanzines para narrar mitos de origem de povos tradicionais. Paralelamente, eles realizaram seminários para apresentar o povo responsável por cada mito, conectando a narrativa cultural à sua realidade histórica e geográfica.
A escolha do formato de fanzine não foi aleatória. Ao produzir suas próprias revistas artesanais, os alunos se tornaram autores e editores, exercitando a criatividade e o protagonismo. Eles puderam explorar os mitos com liberdade, traduzindo narrativas complexas em um formato visual e textual que ressoa com a cultura DIY. Essa abordagem permitiu que a história e as cosmovisões dos povos tradicionais fossem contadas com autenticidade, fugindo dos moldes acadêmicos rígidos e promovendo uma conexão mais pessoal e criativa com o conteúdo.
Entre os povos tradicionais pesquisados e apresentados, destacaram-se: Iny Karajá, Dogon, Maasai, Guarani, San, Yanomami, Zulu, Ticuna e Pataxó. Essa diversidade de temas permitiu aos alunos mergulhar em mundos diferentes, compreendendo que a forma como o universo foi criado é uma questão cultural e que existem inúmeras respostas para essa pergunta, cada uma tão rica e válida quanto a outra. O projeto demonstrou como uma ferramenta simples e criativa pode ser usada para desconstruir narrativas hegemônicas e valorizar a pluralidade cultural, especialmente em um país tão rico como o Brasil.
