O ENSINO DE HISTÓRIA E VINLAND SAGA: O USO DE ANIMAÇÕES JAPONESAS COMO FERRAMENTA DIDÁTICA NA EDUCAÇÃO BÁSICA
Samara Karine Silva de Souza
I. INTRODUÇÃO
Ensinar História na educação básica é uma tarefa que exige sensibilidade metodológica, criatividade e constante atualização. Quando se trata da História Medieval, os desafios se multiplicam devido à distância temporal e cultural entre os alunos e o conteúdo abordado. Para muitos estudantes, o período medieval é frequentemente reduzido a “tempos de regresso”, “Idade das trevas” e demais idealizações rasas, reforçadas por narrativas cinematográficas, jogos digitais e outras mídias de massa. Diante disso, torna-se urgente repensar estratégias que articulem conhecimento histórico com linguagens contemporâneas que aproximem tais conteúdos aos discentes.
Nesse cenário, o manuseio de produtos culturais da mídia juvenil – como os animes – pelo docente, surge como um recurso ousado e interessante de se pensar. Nesse sentido, o anime “Vinland Saga” de 2019 pode ser incorporado às aulas como uma ferramenta de ensino interdisciplinar e crítica.
O presente trabalho tem como objetivo discutir o potencial didático do anime no ensino da História Medieval na educação básica, considerando as possibilidades de articulação interdisciplinar, o estímulo ao pensamento crítico e a valorização de abordagens historiográficas contemporâneas. O texto também dialoga com teóricos como Jacques Le Goff, Mário Jorge Bastos, entre outros, para fundamentar uma prática pedagógica que ultrapasse a simples reprodução de conteúdos e contribua para a formação de sujeitos históricos conscientes.
II. O PORQUÊ UTILIZAR “VINLAND SAGA” NO ENSINO DE HISTÓRIA MEDIEVAL
“Vinland Saga” é uma produção animada baseada no mangá – quadrinho de origem japonesa – de mesmo nome, produzido pelo autor asiático Makoto Yukimura, que transporta os espectadores para a “Era Viking”, entre os séculos IX e XI. A obra narra a história de Thorfinn, um jovem guerreiro islandês obcecado por vingança, e nos leva a uma jornada intensa onde são explorados aspectos históricos, sociais e geográficos que oferecem uma visão mais profunda do entendimento sobre os vikings.
A trama se passa em um período em que os povos escandinavos, conhecidos por suas incursões militares e colonizações, atravessavam mares gelados e ocupavam terras distantes. A produção se foca não apenas nas batalhas intensas, mas também nas complexas relações humanas entre os personagens. Ao longo da história, Thorfinn, o protagonista, enfrenta dilemas existenciais, confrontando questões de honra, moralidade e identidade. Esse aspecto demonstra o quão a série humaniza os vikings, mostrando-os não apenas como guerreiros temíveis, mas como indivíduos com sentimentos, crenças, culturas, falhas e ambições. Essa visão se alinha
com o pensamento de Jaques Le Goff (2005. P.107), que afirma: “É bem sabido que em cada civilização existem camadas diferentes de cultura, de acordo com as categorias sociais dc uma parte e com os aportes históricos dc outra.”
Além dos aspectos humanos, a obra também dá espaço para os contextos geográfico e climáticos. O frio nórdico e as condições adversas do ambiente são elementos essenciais que permeiam a narrativa. O anime retrata as vastas paisagens geladas e as duras condições de vida dos vikings, que precisavam ser adaptáveis para sobreviver. As viagens e incursões marítimas dos vikings são parte integral da história, e o enfrentamento de mares gelados e terras desconhecidas é mostrado de forma vívida. As condições locais e o clima rigoroso impactam diretamente a vida dos personagens e suas escolhas.
“Vinland Saga” explora de maneira detalhada a tensão entre o paganismo viking e o cristianismo em expansão. Durante esse período, o cristianismo estava se espalhando pelaEuropa, e a série retrata como muitos vikings enfrentavam o dilema de manter suas crenças tradicionais enquanto eram pressionados a se converter. Essa transição religiosa é abordada com profundidade, mostrando como a mudança de fé influencia as decisões e as relações entre os personagens, oferecendo uma visão mais complexa da época e das motivações dos envolvidos.
A narrativa se baseia em eventos reais da história viking, embora também apresente elementos fictícios. Por exemplo, a ideia de “Vinlândia”, uma terra promissora além do oceano,
é inspirada em uma hipótese historiográfica em que os vikings teriam chegado à América do Norte, muito antes de Cristóvão Colombo. Além disso, o anime apresenta personagens históricos reais, como o rei Canuto, o Grande, filho do rei Svend I da Dinamarca.
A expansão escandinava não foi menos impressionante. Ela se deu no século 10” em direção Islândia, Groelândia e talvez à América, onde “Normandos” teriam
desembarcado ao redor do ano 1000 em Vinland. Conheceu grande sucesso na Inglaterra, uma primeira vez no fim do século 10” com rei Svend.’ Após sua morte (1014), seu filho Canuto o Grande reina sobre a Inglaterra, Dinamarca, Noruega e Suécia.. (LE GOFF, 2005. p. 62).
No entanto, o anime adapta essas informações históricas para criar uma história mais cativante ao público, ou seja, existem elementos que não devem ser lidos como historicidade e esse fator deve ser notado pelo docente. Dito isso, é importante salientar que a defesa da ideia de que diferentes abordagens, como a utilização de animes em sala de aula, só podem funcionar como pontes para o conhecimento histórico quando são conduzidas por um professor historiador de forma cuidadosa, crítica e reflexiva.
Aos historiadores, homens e mulheres do seu tempo, compete dimensionar
historicamente os fenómenos, as demandas e os anseios que mobilizam a atenção e instigam o desejo de conhecimento das suas sociedades contemporâneas, nas quais vivem e a partir das quais são mobilizados para a produção do conhecimento histórico. (BASTOS, 2016, p. 13).
Considerando que o ensino de História deve partir das inquietações do tempo presente, como propõe Bastos (2016), o uso de “Vinland Saga” em sala de aula ultrapassa a simples ilustração de conteúdos. Trata-se de uma estratégia que reconhece o interesse dos estudantes por narrativas visuais e as utiliza como ponto de partida para a construção de saberes históricos.
O anime permite trabalhar competências como a análise crítica de imagens, a interpretação de valores sociais, o debate ético sobre fé, violência e poder, além de possibilitar a comparação entre ficção e realidade. Além disso, como destacam Miranda, Monteiro e Pirozi (2023),
Vinland Saga apresenta um grande potencial interdisciplinar, pois articula conteúdos de História, Filosofia, Literatura, Artes e Sociologia, tornando a aprendizagem mais rica e conectada às experiências juvenis.
III. APLICAÇÃO EM SALA DE AULA
O anime “Vinland Saga” pode ser um recurso pedagógico eficaz para o ensino da História Medieval na educação básica, especialmente por sua capacidade de dialogar com o imaginário juvenil e suas referências culturais. Este também articula personagens históricos reais e elementos ficcionais, permitindo que os alunos reflitam sobre os usos do passado em
produtos midiáticos contemporâneos. Além disso, a estética e o dinamismo narrativo do anime contribuem significativamente para o interesse dos estudantes.
Em vez de rejeitar essas linguagens como superficiais ou “menos sérias”, o mentor pode se apropriar delas como instrumentos de mediação, promovendo a leitura crítica e o debate qualificado. O uso de “Vinland Saga” deve, portanto, estar inserido em uma prática pedagógica integrda, planejada e problematizadora, que envolva a análise de fontes históricas, a comparação com outras representações midiáticas e a discussão de temas como memória, identidade e construção narrativa.
No 1° ano do Ensino Médio – turma escolhida – a proposta didática pode ser desenvolvida ao longo de duas aulas de 50 minutos. Na primeira aula, o professor realizará uma contextualização sobre as invasões germânicas, com base no livro didático e/ou em materiais complementares selecionados. Em seguida, serão exibidos trechos específicos ou um episódio completo do anime, com foco em aspectos como cultura, geografia, crenças e relações de poder presentes no universo retratado.
Durante essa aula, os alunos serão organizados em grupos e orientados a realizar uma atividade comparativa entre os conteúdos apresentados nesse anime ou em outras obras de interesse dos próprios. Para isso, poderão utilizar o livro didático, materiais complementares fornecidos pelo docente e, caso necessário, realizar pesquisas em fontes confiáveis.
Na segunda aula, os grupos deverão montar uma tabela comparativa com os principais elementos analisados, destacando semelhanças e diferenças entre a narrativa histórica e a ficcional. Essa tabela servirá de base para a culminância da finalização da atividade: um ciclo de debates em sala de aula. Nesse momento, os estudantes apresentarão seus resultados, defenderão seus pontos de vista e ouvirão diferentes interpretações, promovendo a construção coletiva do conhecimento.
Essa proposta estimula o desenvolvimento da argumentação, do olhar crítico e da leitura consciente de produtos audiovisuais presentes na contemporaneidade. O uso do anime Vinland Saga como recurso pedagógico configura-se, portanto, como uma estratégia ousada, capaz de aproximar o currículo escolar da realidade dos alunos, despertando seu interesse e ampliando suas formas de compreender e representar o passado.
IV. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A utilização de animes como recurso pedagógico no ensino de História Medieval permite uma abordagem inovadora que aproxima o conteúdo histórico das realidades culturais e interesses dos estudantes. Ao incorporar elementos de ficção histórica, os alunos têm a oportunidade de refletir sobre temas complexos, como religião, poder, identidade e os conflitos da época, ao mesmo tempo em que desenvolvem habilidades analíticas e críticas.
Essa estratégia não se limita a ilustrar os conceitos abordados, mas cria um ambiente propício para a reflexão sobre as conexões entre passado e presente, fomentando o debate e a interpretação de diferentes fontes históricas. Ao usar essas narrativas como ponto de partida, o docente promove uma aprendizagem mais dinâmica, interdisciplinar e envolvente, favorecendo o desenvolvimento de competências essenciais para a formação crítica dos alunos.
Portanto, ao integrar mídias contemporâneas ao processo de ensino, como animes, abre- se um espaço para que os alunos reconheçam a relevância da História em suas vidas, ao mesmo tempo que cultivam o pensamento crítico e a habilidade de analisar conteúdos de maneira mais reflexiva e consciente.
V. REFERÊNCIAS
LE GOFF, Jacques. A civilização do Ocidente medieval. São Paulo: EDUSC, 2005.
BASTOS, Mário Jorge da Motta. Quatro décadas de História Medieval no Brasil: Contribuições à sua crítica. Diálogos, v. 20, n. 3, 2016, p. 13.
MIRANDA, Luan da Mota; MONTEIRO, Márcio de Oliveira; PIROZI, Anízio Antônio. O ensino interdisciplinar da História Medieval através do mangá Vinland Saga no ambiente escolar. Revista Transformar, v. 17, n. 1, 2023.
VINLAND SAGA. Direção: Shūhei Yabuta. Produção: Wit Studio; MAPPA (2a temp.). Japão: NHK, 2019–2023. Série animada, 48 episódios, color., son. Disponível em: https://www.netflix.com/. Acesso em: 12 de Maio de 2025.
Texto disponível em formato PDF aqui.
